Tuesday, December 6, 2011

ABA - desenvolvendo auto-controle

O Luís por muito tempo foi uma incógnita para mim. Tinha seu acessos de raiva e eu nao tinha a menor idéia o que havia acontecido. A minha rotina era sob gritos, pois cada ataque de raiva durava pelo menos 1 hora e meia e eram uns 8 por dia. Exaustivo!

O problema do Luís era "sair alguma coisa da rotininha dele". Ele também tem problemas quando caía uma gota na mesa ou no chão (mais com líquidos) e ficava fixado em limpar e muito nervoso.

Para trabalhar esse problema, nós desenvolvemos um programa com base no ABA, "you're cool, you stayed calm" (você é legal, você ficou calmo) então nós "apertavámos os botões" do Luís, só um pouquinho com a intensão de colocá-lo próximo ao seu limite de tolerância, mas sem atravessar esse limite e então premiávamos ele por estar calmo antes que ele tivesse tempo de explodir.


A idéia é trabalhar o descontrole em um ambiente controlado. Seria mais ou menos assim:

Eu dou um copo de suco para ele e deixo uma gota cair na mesa "acidentalmente" mas limpo super rápido porque eu já tinha o papel toalha à mão, olho para ele e digo "você ficou calmo, que bom!" e dou o brinquedo reforço para ele, assim ajuda a distraí-lo da situação estressante. E repito, "caiu uma gota e você ficou calmo, eu estou tão orgulhosa de você". Só que tem que ser super rápido, para não dar tempo de desencadear o ataque. Conforme a criança for acostumando com esses "acidentes" rápidos, você pode ir aumentando bem de vagar o tempo de demora para limpar. Por exemplo, você vai demorar 1 segundo, depois 2, depois 5 segundos. Se no caminho ela tiver um ataque porque você demorou demais para limpar a sujeira, volte ao intervalo anterior, mas persista.

Ao mesmo tempo trabalhe em outras atividades "menos tensas" a flexibilidade, por exemplo, tente quebrar as rotininhas que a criança tenha estabelecido, ou faça alguma coisa diferente do que ela esta acostumada e sempre premeie por ela ter ficado calma com a mudança.

Vá aos pouquinhos com o tamanho da sujeira, comece com só uma gota e depois que ela aceitar, passe para mais um pouquinho.

Agora, se no percurso da vida alguma sujeira acontecer fora do "ambiente controlado" e a criança tiver um ataque de raiva, limpe rápido e tente retirá-la da situação. Até que ela tenha masterizado a sujeira, ou o que quer que seja que a descontrole. Criança (ou qualquer pessoas) em descontrole não aprende, não processa.

Não adianta você tentar explicar ou ensinar enquanto criança estive descontrolada, ela não vai ouvir e só vai piorar a cena com a falação.

Você pode fazer um livrinho com a criança como personagem ou algum personagem que ela goste, esse livrinho pode mostrar que "o Luís é um menino muito sabido e organizado; que gosta das coisas bem limpinhas, mas às vezes pode cai uma gotinha de suco na mesa, ou o pão pode cair no chao, mas o Luís fica calmo e pede para a mamãe limpar."

E você lê esse livrinho personalizado para a criança num momento que ela esteja calma e feliz, assim facilita o aprendizado da menssagem.

Monday, December 5, 2011

ABA - Pronomes e reversão de pronomes

Tem gente que acredita que a reversão do pronome também está ligada ao conhecimento pragmático, é a questão de tomar a perspectiva do outro e isso também explicaria porque tantas crianças com autismo ao invés de narrar o que aconteceu, encenam com as mesmas palavras (ecolalia dos diálagos) o que querem contar.

Eu acredito que as crianças entendem que você é você e eu é ele/ela quando eles narram, não acredito que seja um problema gramatical, acho que é a pecinha do pragmático que falta. Nós trabalhamos isso como uma questão de fluência. No nosso conceito, nós queríamos praticar e torná-los fluentes nessa reversão de pronomes. E foi praticado na rotina diária e em terapia.







Para o EU:

Eu sempre oferecia: "Quem quer …? (alguma coisas irrecusável) então eu ajudava eles a responder "EU" batendo com a mãozinha no peito.

Quando o EU estava fixo na cabecinha deles, começamos a trabalhar o VOCÊ.

Para o VOCÊ nós utilizamos características visíveis de roupa, cor de cabelo, cor de olhos.
"Quem tem cabelo comprido?" era sempre eu, então eu ajudava eles a colocar a mão em mim e dizer VOCÊ.

Quando estávamos bem nessa, passei a misturá-los nas perguntas.
"Quem está com camiseta branca?" e quando eles hesitavam na resposta eu só colocava a mãozinha na pessoa, neles mesmos para o EU e em mim para o VOCÊ.

A partir deste ponto nós acrescentamos o ele , ela e eles. (em inglês não tem elas) Ufa! E continuamos a utilizar o vestuário, cor dos olhos e com isso, naturalmente foi introduzido o NÓS.


Sozinho o Luís percebeu a diferenca do IT (agora só existe em inglês) e ele
mesmo explicava: "Not she, not he, it barks" quando ouvia um cachorro latindo.

Depois, nós trabalhamos o NÓS como sentido de grupo, de pertencer a um grupo. E isso nós só trabalhamos na rotina diária. Então trabalhamos o NÓS pertencentes a familia e o NÓS = Luís + amiguinhos da escola.

Bibliografia:

Growing Up Social: Exploring How Social Communication Develops ... and strategies to help! by Michelle Garcia Winner

ABA - aprender abrincar

Este exercício é uma derivação do imitar com objetos e o objetivo principal é ensinar a criança alguns "roteiros" de brincadeira. É super importante planejar o que vai ser ensinado e que se respeite a idade da criança e a melhor maneira de fazer isso é observar as crianças típicas da mesma idade brincando, não tente ensinar mais do que é próprio da idade. Nós, adultos, temos tendência de brincar muito sofisticado e isso perde o sentido da brincadeira para a criança.


Para o Luís eu separei alguns brinquedos que nós temos aqui em casa e o objetivo principal para ele era que ele falasse, emitisse sons, enquanto estava brincando. ( o que é próprio da idade 2 anos e 9 meses).

Nós temos a fazenda então com base nesse brinquedo o roteiro era o seguinte:

O adulto pega dois cavalos de brinquedo, segura um e dá outro para o Luís então ela faz o cavalo galopar e diz "neih, neih" na sequencia diz para o Luís "sua vez" ou "faça isso" e o Luís tem que imitar.

Seguimos esse mesmo princípio para todos os movimentos.

Mais alguns exemplos de exemplos scripts:



FAZENDA
· Faça o cavalo galopar e faça barulho de cavalo;
· Faça a galinha sentar sobre os ovos e cacarege;
· Deite o homem na cama de palha e ronque;
· Coloque o galo no telhado e cante como galo;



COZINHAR
·Corte alguns vegetais (de plástico) e diga "chop, chop"; Monte um sanduíche e nomeie as coisas (alface, tomate, queijo) conforme for montando o sanduíche; "coma" o sanduíche e diga "mmmmm"



Use sua imaginação e os brinquedos que você tem em casa. Lembre-se de manter a linguagem simples para ajudar na imitação e que a criança tenha sucesso e não frustração ao brincar.

Quando a criança já estiver boa em manipular os brinquedos, introduza um amiguinho para brincar em paralelo.
Asas para a imaginação:

Quando a criança já tiver um bom repertório de scripts comece a trabalhar coisas mais abstratas, primeiro misturando os jogos de brinquedo, como por exemplo usando o serrote para cortas as frutinhas ao invés da faquinha.

Montem um "acampamento" e finjam estar sofrendo o ataque de um urso, salve alguns brinquedos dos "monstros", faça conchinhas com as mãos e brinquem de mostrar um para o outro o que você está imaginando estar segurando. Ria e divida a gargalhada com a criança.



Bibliografia

Teaching Playskills to children with autistic spectrum disorder - A pratical Guide by Melinda J. Smith. MD

Sunday, December 4, 2011

ABA - auto crontole

O Plano de ABA do Luís no início do tratamento era só voltado para este enorme problema, pois era impossível que ele aprendesse qualquer outra coisa pois sua inflexibilidade era expressa através da agressão, esta agressão vinha pela falta de controle do impulso. Enfim, este programa foi utilizado com o Luís para eliminar a agressão (e deu certo!), mas pode ser utilizado para eliminar qualquer outro comportamento indesejável como fugir, cuspir, etc.

O básico da técnica é quebrar o problema em etapas, no caso do Luís eu peguei a pior agressão paras ser trabalhada primeiro (mordidas) e trabalhei ela como parte isolada do problema total de agressão, assim ele foi capaz de entender a expectativa pois era clara. Depois é que fomos ampliando para as outras formas de agressão (chutes, tapas, etc). Todos que tinham contato com o Luís fizeram isso simultaneamente, em todos os ambientes.



Técnica de reforco positivo:


Você prepara uma caixa com coisas que seu filho goste, de brinquedos a guloseimas (estas cortadas em pedacinhos pequenos para que ele sempre fique com vontade de "quero mais" e assim você preserva a motivação) e esse será o prêmio. Deixe a caixa absolutamente fora do alcance da criança.

A técnica diz para utilizar um bracelete ou pulseira, o Luís não gostou de ter algo preso ao seu braço, então nós adaptamos para um adesivo na camiseta.

Eu colocava 1 adesivo na camiseta do Luís e dizia: "Você é um menino legal! você está com o adesivo de menino legal" e deixava ele ter acesso a 1 coisa da caixa de tesouros. A cada 15 min (no começo) eu fazia a "inspeção" de adesivo, se ele estava com o adesivo eu mostrava e dizia: "Olha, você é um menino legal, você está com seu adesivo de menino legal!" (se ele tinha perdido o adesivo porque descolou eu colocava outro) e dava acesso a outra coisa da caixa. É importante que você volte o brinquedo para a caixa em 5 min, se ele ainda estiver brincando, distraia com outra coisa menos predileta e retire o brinquedo.

Agora, se ele mordia, perdia o adesivo e o direito de acessar a caixa. Eu retirava o adesivo e dizia: "Você mordeu a mamãe, isso não é atitude de menino legal!"
Atenção: Você "reclama" da atitude e não dele. A atitude de morder é que você não permite.

Depois você pode ir aumentando para a cada 30 min, 1 hora, etc

No começo o comportamento pode piorar, por mais ou menos 3 dias porque a criança ficará ainda mais brava por ter perdido o adesivo e o direito a caixa, mas depois ela realizará o que tem que fazer (ou não fazer) para ter o direito a caixa. Por isso a necessidade de um objetivo claro a ser atingido.

No primeiro mês e meio mais ou menos, o Luís só perdia o direito a caixa se ele mordesse. Tapas, ponta pés, chiliques ainda não retiravam o adesivo, quando ele entendeu bem a mordida, eu passei a usar a técnica para mordidas e chutes, e o resto ele entendeu sozinho.

Ele gostou tanto da história do adesivo do menino legal que com o tempo eu não usava mais a caixa, só o adesivo. Isso porque, paralelamente, sempre trabalhamos a auto-estima, o orgulho de fazer parte de um grupo e o auto-orgulho quando fazemos coisas boas.

Quando ele comecou a entender, ele vinha para morder, abria a boca e colocava os dentinhos no meu braço, parava e pensava, nao chegava a fechar a mordida, afastava a boca e checava o adesivo. Mas isso demorou quase 1 mês.

Eu sempre leio livrinhos para eles sobre comportamento, o livrinho da mordida diz assim:


"Dentes não são para morder as pessoas, porque mordida dói;
dentes são fortes e afiados,
dentes são para mastigar comida;

Mesmo que você sinta vontade de morder,

a melhor atitude é fazer outra coisa,
porque mordida, ai, dói!

Você pode morder um brinquedo, ou seu travesseiro,

você pode pedir para a mamãe um abraço,
mmmm, abraço é gostoso.


Dentes não são para morder as pessoas,
porque mordida dói!

Dentes são para um lindo sorriso."


Você pode fazer o livro em casa e colar figuras de revistas, imprimir do Google images, colocar fotografias, ou desenhar. Não se importe com a perfeição, eles não ligam, e leia para seu filho quando ele estiver calmo, e só quando ele estiver calmo, quando ele estiver nervoso não irá aprender. Faça entonações exageradas ao ler.

Mesmo que pareca que a criança não está prestando atenção, leia, leia e leia, um dia você vai se surpreender com ela pedindo para você ler.

Vença pelo cançaso!
Você pode criar seus próprios livrinhos, use sempre primeira pessoa e verbo no presente e escreva sempre o que você espera que a criança faça.

Friday, November 25, 2011

Thanksgiving por Paula Cardoso


Lentamente criei coragem de abrir o armário que abriga tantos documentos, artigos, fotos, e-mails que há mais de um ano me reportaram ao autismo da minha filha. Caramba! Como é difícil reviver cada momento, cada expectativa... o sonho, a esperança de que tudo fosse um engano, um erro... a busca desesperada por tudo que não a encaixasse nesse diagnóstico.... depois a dor, a maior de todas, a mais doída que já senti.... em segundos toda a vida passando na cabeça, meus momentos mais difíceis: o fim de um namoro, o emprego perdido, uma saudade, a falência financeira, uma cirurgia, os 800km a pé no Caminho de Santiago, a avó que se foi tão cedo... mas nada, nada se igualava a dor que senti.
AUTISMO !!!! algo capaz de redirecionar minha vida...
Sem saber o que fazer, decidi juntar-me à Laura da maneira mais simples, genuina e amiga que consegui... e foi então que tudo fluiu... Poderia citar cada detalhe, cada conquista dessa minha menininha, dessa mãe tão desesperada, mas acho mais importante nesse momento dizer o que mudou de lá pra cá...
Ver o mundo sob outro prisma, deitada no chão, enfileirando objetos ao seu lado, observando folhas caíndo das árvores, fazendo e refazendo o mesmo caminho várias vezes, buscando olhares, gestos simples, apenas um sorriso num rosto tão perdido, tão distante.... me fez ver coisas que nunca havia notado.
Desacelerar foi minha primeira e mais importante conquista... Depois vieram outras, muitas outras...
De lá pra cá só agradecimentos: pelos dias de chuva que chamam tanto a atenção da Laura, pelos dias de sol que alegram a Julia, pelo bolo que eu fiz e elas comeram, pelo xixi no vaso, pelo sorriso constante no rosto da Ju, pela novidade aceita pela Laura... pelo segundo lugar da Julia nas Olimpíadas de matemática do Porto, pelas nossas conquistas!!!. Costumo dizer desde muito nova que Deus sempre foi bom demais pra mim... e continua sendo. Agradeço porque aprendi a enxergar além das pessoas, das suas dificuldades, e também porque tenho aprendido a lidar e expressar melhor as minhas.
Sou grata por poder pegar meu carro e sair cantando pela estrada, por poder sentir a areia do mar nos meus pés.... sou grata por ver, ouvir, enxergar, gritar, pular, correr, dançar, rodar, virar cambalhota... Sou grata também por estar num momento de paz, de realizações... pelas flores que envolvem minha casa, pela brisa que entra pela janela... muito agradecida pelas horas de sono consquistadas..
Sou grata porque pude conhecer tanta gente especial...
Tenho aprendido a me perdoar, a entender que muitas vezes eu faço o melhor que posso e que nem sempre as coisas saem do jeito que quero... mas que é possível ser feliz mesmo assim...
Minha casa tem ficado mais bagunçada e minhas emoções mais equilibradas. Já não perco tanto tempo limpando, arrumando, consertando...
Quando meu mundo ficou laranja, todas as cores desapareceram... Hoje só posso agradecer pelas novas nuances que me foram presenteadas...
Cada dia mais leve, cada dia mais feliz!

Thursday, November 24, 2011

Thanksgiving por AnaLú Felix



E stive por dias, buscando

U m modo perfeito de agradecer

P elo muito que temos recebido ao longo desse ano....

R egistrar, em poucas palavras,

E xperiências e vivências valiosas,

C onquistas e perdas dolorosas,

I mpulsos e recuadas estratégicas,

S ofrimentos e explosões de alegria...

Ô nus e bônus , de um “ pacote” chamado

A utismo!!!!!

G anhamos mais amigos,

R eafirmamos compromissos

A limentamos a esperança

D elimitamos caminhos...

E xitamos por uns instantes

C onfusões foram constantes...

E em meio a grandes turbulências

R estabelecemos as resistências!!

N uvens foram se dissipando,

O céu novamente clareando,

V idas se reestruturando

A paz, em volta, retornando

M ais fortes enfim, nos tornamos.

E hoje, então, numa prece poderosa,

N os unimos para agradecer,

T udo aquilo que já passamos

E por muito mais que há de acontecer !!!!

Analú - 2011