Saturday, October 30, 2010

A fala: mecanismos da comunicação, as regras e o significado do que se comunica

Como qualquer sistema de produção, a linguagem tem duas partes: entrada e saída.

Sem a entrada de boa matéria-prima, inevitavelmente a qualidade da produção sofre, isso acontece também no sistema de produção de linguagem. Se o estímulo recebido não entra com qualidade e clareza, seja por um problema de qualidade do estímulo, seja por problemas no processo auditivo, mecânico ou neuronal, o que a fala será capaz de produzir não será de qualidade. Este efeito é conhecido como o Efeito Tomatis: “a voz só produz o que o ouvido pode ouvir”.

O processo mecânico da fala depende da entrada clara, na ordem correta e manutenção dos sons na memória imediata o tempo suficiente para que o cérebro registre estes sons. Então, a ordem deve ser recapturada e enviada ao aparelho da fala para a produção das palavras.


Fonologia é o nome dado à capacidade de usar sons. O desenvolvimento fonológico começa quando o som da fala ativa redes neurais.

Marcos do desenvolvimento mecânico da fala:
4 primeiros meses: Pode distinguir entre sons diferentes.
4 a 8 meses: balbucia.
9 a 12 meses: Primeiras sílabas (mama, papa)
Primeiras consoantes, geralmente p,m,t, k.
Primeiras vogais, geralmente a, i, u.
A criança seguirá balbuciando mesmo já sendo capaz de dizer as primeiras palavras.
3 anos: A fala pode ser entendida.
4 a 5 anos: Pode pronunciar junções mais complexas de consoantes.
6 anos: Pode produzir e distinguir todos os sons das vogais.
8 anos: Pode produzir e distinguir todos os sons das consoantes.
9 anos: Pode lembrar e produzir 4 a 5 palavras em sequência.

As regras do processo da fala chamamos de gramática (sintaxe).

Algumas crianças têm problemas para incorporar estas regras de gramática. O problema pode ter como raiz modelos de baixa qualidade de gramática em casa ou outro ambiente, podem ser causados por problemas no ouvido durante seus primeiros anos de vida, ou possivelmente de algum atraso nos circuitos do cérebro que causa uma deficiência de linguagem. A criança que tem dificuldade em lembrar seqüências de palavras terá dificuldade de reproduzi estas sequências em sua fala.

Crianças aprendem regras sintáticas através dos adultos. Uma maneira de corrigir erros sintáticos é re-frasear e expandir a fala. “Ontem eu foi na escola”; “Ontem eu não fui na escola, só você foi, eu fui ao mercado”.

Você também pode criar jogos específicos, como jogos de preposição se o problema da criança estiver no uso delas.


Seja paciente, estas regras gramaticais são incrivelmente complicadas. Muitas vezes, a iniciativa e desejo de se comunicar expressando suas idéias é mais importante do que a utilização correta da regra gramatical.

A semântica representa entender o significado da linguagem, sejam palavras simples ou longos textos.
O modelo para a compreensão da linguagem e sua expressão está nos padrões da experiência pessoal da criança.

As crianças desenvolvem redes semânticas a partir de experiências em primeira mão, com objetos do mundo real, ouvem as palavras associadas a esses objetos e, em seguida, associadas a outras palavras.

Compreender a língua é basicamente uma questão de compreender relações. Um problema precoce em entender relações é em torno dos pronomes. "Você me dê isto" significa coisas diferentes dependendo de quem o diz.

Aqui e ali, preposições em geral, pequeno e grande, etc., tudo depende de compreender relações. O cérebro humano é bem adaptado para este tipo de trabalho se a pessoa tiver uma boa base para a compreensão de relação física, e isso começa entendendo o seu próprio corpo no espaço.

O cérebro tende a lembrar de coisas ou eventos que ele já está maduro para experienciar, que tenham significado, que possam ser agrupados em padrões e possam ser associados a uma experiência anterior. A compreensão também depende de uma experiência prévia em que possa ser feita uma associação.

Bibliografia:
How your child’s brain grow. Brain Development and Learning From Birth to Adolescence, Jane M. Healy, PH.D.
The RDI Book. Forging New Pathways for Autism, Asperger’s and PDD with the Relationship Development Intervention Program, Steven E. Gutstein, PH.D.
Smart Moves. Why learning is not all in your head, Carla Hannaford, Ph.D.

Saturday, October 23, 2010

Gestos


Gestos, mímicas, expressões faciais são o fundamento para desenvolver a linguagem semântica.

A importância da comunicação não-verbal é tão óbvia que é intrínseca ao desenvolvimento típico. Pense no quanto pode ser comunicado sem o uso de palavras.

Se você observar a comunicação, nós estamos o tempo todo procurando por sinais que assegurem que nós estamos sendo compreendidos, a grande maioria desses sinais estão nos gestos que incluem nossa postura que é a expressão corporal e nossas expressões faciais; é daí que vem nossos gestos.

Por isso, é de extrema importância que ao estimular uma criança que tenha comprometimento na comunicação a falar não esqueçamos da tremenda importância de usar e interpretar gestos.

No livro “Your Child’s Growing Mind” da autora Jane M. Healy, PH.D. página 189 você encontra: “Neurolingüistas asseguram que linguagem (e inteligência humana, da mesma forma) desenvolve-se diretamente dos gestos, e também pelo processo de manipular ferramentas (brinquedos no mundo infantil), além de atividades físicas que devem englobar o pensamento e não somente um movimento de reflexo.”

Além da comunicação o uso de gestos desenvolve a inteligência da criança através da percepção e atenção. Inclua no tratamento do seu filho um período do dia em que vocês se dediquem à comunicação sem palavras, use gestos, olhares, posicionamento do corpo como meios de comunicação, você irá perceber como é necessário uma sinergia e que a comunicação mais complexa só acontece quando estes componentes estão presentes e não somente as palavras.


No vídeo abaixo é um exemplo do uso de gestos com seu objetivo maior como o aumento da conscientização do que acontece no ambiente num dos objetivos do programa de RDI.





Também é possível trabalhar gestos com programas de ABA, estes programas definem a importância de aprender gestos, além de conscientização do que acontece no ambiente e entendimento de linguagem não-verbal, mas também o aumento da capacidade de ler pistas sociais; melhorar o funcionamento na sala de aula e em grupos em geral, inclusive o grupo familiar e desenvolve meios de comunicação adicionais.


Na nossa experiência, além de todos os objetivos descritos pelo ABA e RDI em relação aos gestos, nós descobrimos que o gesto, como movimento auxilia na produção oral do Pedro, é como se o gesto facilitasse a organização corpórea para que a fala flua com mais facilidade. Até hoje, o Pedro se apóia na ASL (American Sign Language – Linguagem de sinais) em dias que seu sistema sensorial está mais atrapalhado, e essa ferramenta auxilia na expressão oral.


Bibliografia:


Your Child’s Growing Mind, by Jane M. Healy, PH.D.
Smart Moves, by Carla Hannaford, Ph.D.
The RDI Book, by Steven E. Gutstein, Ph. D.
A work in progress, by Ron Leaf & John McEachin

Thursday, October 14, 2010

Olhar - Nossa experiência


O contato de olhar do Pedro aos 2 anos era quase inexistente, ele sim, trocava alguns olhares comigo porque sou a mãe, mas eram olhares breves e pouco freqüentes.


Aos 2 anos e meio começamos o nosso programa caseiro (sem consultora) de ABA seguindo o livro da Catherine Maurice, mesmo sentindo que algo não estava de acordo, fizemos o programa do "look at me" (olhe para mim e a criança ganha um reforço), guiada pelo instinto, fora da cadeirinha eu buscava o olhar do Pedro e fazia as minhas caretas, segui persistente mesmo com pouquíssimo retorno que vinha quase sem nenhuma qualidade no olhar.


Quando o Pedro estava com 3 anos a consultora comportamental entrou em nossas vidas e reformulou os programas de estímulo do Pedro. Os que se referiam ao olhar tinham como objetivo buscar o olhar do Pedro não importasse o esforço necessário da nossa parte, lenta mas progressivamente o olhar foi aumentando em constância e qualidade.




Instintivamente eu instalei espelhos pela casa, aqueles espelhos de corpo inteiro, porém eu pendurei estes espelhos na horizontal, principalmente nos lugares que o Pedro passava mais tempo, com isso eu trabalhava o olhar dele através do espelho o que pareceu ser mais fácil para o Pedro manter o olhar.

Estes espelhos depois serviram para trabalhar imitação motora e outros jogos de RDI, no vídeo abaixo é um exemplo de uma atividade de RDI mas eu resgatei nossas primeiras interações através do espelho, se você está começando a trabalhar o olhar use a sugestão sem o movimento de ir e vir, só a brincadeira no espelho mesmo.

http://http//www.youtube.com/user/dorionschenk#p/u/13/WTdq3ynDzg0

No vídeo também trabalhamos a fase de transmitir a mensagem só através do olhar (a direção que temos que ir).


Porém, antes de seguir instruções através do olhar, trabalhamos dentro do programa de ABA encontrar o tesouro seguindo olhar, a brincadeira tem duas etapas, na primeira etapa tínhamos 3 cestas exatamente iguais viradas de boca para baixo, então escondíamos um reforço embaixo de uma das cestas, com o olhar e somente com o olhar indicávamos ao Pedro em qual cesta estava o reforço, no início, para a indução de acerto chegávamos a encostar o nariz na cesta que o reforço estava escondido, e daí fomos afastando a indução de acerto até que com o tempo só o olhar na direção da cesta era o suficiente para dar a pista de onde encontrar o tesouro.


Na fase seguinte escondíamos o tesouro (reforço) em um lugar do quarto de terapia e indicávamos aonde estava somente com o olhar, novamente, por causa da mudança da estrutura da "caça" tivemos que encostar o nariz no lugar onde o reforço estava escondido, gradualmente fomos afastando a indução do acerto até que só o olhar na direção já disparava o Pedro pela caça ao tesouro.


Este foi um ponto importante que aprendemos na nossa jornada, o Luís tinha e mantinha um ótimo contato ocular de autista segundo um dos especialistas que nós consultamos, isso queria dizer que ele olhava para nós, porque assim foi treinado, mas o Luís não sabia que através do olhar buscamos informações sobre o ambiente e como devemos nos comportar. Para ele, e depois para o Pedro também desenvolvemos a brincadeira de limpar janelas e espelhos (e os espelhos ligavam para as primordias brincadeiras de buscar o olhar e imitação) somente seguindo as instruções do olhar, como indução de acerto (que foi necessária no começo) usávamos o apontar, mas jamais palavras para não competir com o foco que queríamos ensinar: o olhar como fonte de informação.

http://www.youtube.com/user/dorionschenk#p/u/8/kPNjkqws-H4


http://www.youtube.com/user/mariaschenk#p/u/18/MBuKJi9LSF4


Na rua ou em lojas como supermercados e lojas de departamento trabalhamos com o Luís o olhar pra saber qual caminho seguir, assim em cada encruzilhada ele sabia que teria que olhar para nós e com o olhar nós indicávamos o caminho a seguir. Assim construímos a referência através do olhar, tão importante para o amadurecimento emocional do Luís.

Wednesday, October 13, 2010

A importância do olhar

Olhar


Este é o primeiro fundamento da comunicação e da interação pessoal e é o que mais gera confusão.

Numa pesquisa rápida no Google eu encontrei algumas “explicações” do porque o contato visual é tão importante, entre elas é que olhar olho no olho quando conversamos com alguém é um sinal de respeito pelo emissor, outra é que os olhos são as janelas da alma e olhando nos olhos de alguém você conseguiria ver sua alma, outra é de que precisamos olhar para poder entender o que nos está sendo falado. São todos motivos válidos.


Para todas essas explicações você encontra comentários refutando-as, e todos os comentários são igualmente válidos. Assim, podemos entender o porque de tanta confusão sobre o tema.

A minha hipótese (educated guess) sobre o contato visual é que só olhando para alguém, para o rosto como um todo (e não focando só no olho, só na boca, só no nariz, etc) é que somos capazes de conectar com essa pessoa e com as emoções que estão por trás de sua fala.

Se a busca do olhar é o primeiro movimento humano em direção à interação e a comunicação não podemos ignorar a importância do olhar no desenvolvimento humano mesmo que não tenhamos um consenso em sua funcionalidade que provavelmente é múltipla.


A primeira infância é repleta de brincadeiras que exploram o contato visual, as caretas, prosódicos, a comunicação que cria vínculos e que não precisa de palavras.


As crianças com autismo ou não desenvolvem estas brincadeiras visuais com seus pais quando bebês ou perdem a qualidade e intensidade depois da manifestação da síndrome. Em ambos os casos é de extrema importância que haja o resgate desta fase de entender o olhar.


Basicamente, é importante ressaltar à criança com transtorno de desenvolvimento através de jogos, brincadeiras e atividades que o olhar é uma poderosa ferramenta de informação, tanto a comunicação que o olhar passa através da expressão, tanto a informação que conseguimos perceber no ambiente seguindo o olhar de alguém.


Os primeiros contatos visuais devem trazer prazer à criança para que essa busca por prazer traga a motivação para o aprendizado e exploração. É a criação de vínculos através do olhar que você pode ler mais no post: Por onde começar de set/2010, neste blog.

Sunday, September 26, 2010

Eu só quero que meu filho fale …



A comunicação de uma criança começa com seus primeiros choros e gradativamente se expande para também incluir expressões faciais, gestos e, por último, a fala.



A linguagem é muito mais do que simplesmente falar. A partir do dia em que a pessoa nasce, mãe e filho se comunicam através de conversas com olhares, sorrisos e linguagem corporal. A criança reage à voz da mãe e ao som do seu coração.



Quando a fala aparece, as primeiras palavras são substantivos (biscoito, suco, cachorro, copo) e são objetos familiares à criança.



A criança gosta de cantar músicas familiares e repetitivas, com rimas e melodias com seus cuidadores, o vocabulário cresce a cada semana e quando a criança já tem um repertório expressivo em torno de 50 palavras (substantivos que nomeiam coisas do seu ambiente direto) a criança começa a colocar substantivos e verbos juntos para formar frases de duas ou mais palavras, daí então a criança passa a adicionar em suas frases adjetivos e às vezes, preposições.



A completa maturidade da linguagem não acontece antes da adolescência, e possivelmente até depois dela. A linguagem usada numa função exploratória é a base para o pensamento, o maior implemento para o crescimento intelectual, porém essa linguagem não reside somente na oralidade.



É assim que se desenvolve a comunicação, e para uma criança com transtorno ou atraso no desenvolvimento deve-se “preencher” estas etapas para que a comunicação, e não somente uma fala desconecta, se desenvolva.



E por que nós nos comunicamos?



A capacidade de comunicação (seja qual for o meio de comunicação) permite que a pessoa expresse suas necessidades, suas emoções e é um canal para entender as pessoas e o mundo à sua volta de uma maneira que pode diminuir sua ansiedade e ampliar seus limites ao longo do tempo.



A comunicação é o meio mais comum de interação, porém nós temos sete finalidades distintas para a comunicação:



1. Instrumental: para satisfazer necessidades e desejos -“Eu quero água.”



2. Regulatória: para controlar o comportamento dos outros e o próprio – “Vamos combinar como nós vamos resolver qual o próximo filme que nós vamos todos assistir”; “Cada vez que você sentir que vai explodir, conte até dez.”



3. Interacional: para estabelecer e manter contato com outras pessoas – “Me conte da sua viagem à praia enquanto fazemos compras no supermercado.”



4. Pessoal: para expressar escolhas, assegurar-se e tomar responsabilidade – “Eu quero vestir a blusa de cor azul”; “Eu estou triste, preciso contar o que aconteceu na escola hoje”; “Eu posso conversar com meu colega amanhã e resolver este problema”.



5. Aprendizado: para fazer perguntas e receber informações – “Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”



6. Imaginação: para criar imagens e padrões, imaginar – “Vamos imaginar o que aconteceria se só tivesse chocolate para comer”.



7. Representadora: para passar informações a outros, para falar sobre idéias – “Vamos debater como poderíamos dar nossa contribuição para uma sociedade mais gentil”.



Porém, nem para a linguagem instrumental só falar basta, é necessário que a pessoa também entenda os princípios básicos da comunicação que envolvem a existência de um emissor e receptor, tom de voz, ritmo e entonação.



Para a comunicação social é necessário ainda mais, é preciso que se reconheça e se entenda linguagem não-verbal, interesses e tudo o que vai nas entrelinhas de uma relação interpessoal.


Bibliografia:


Moor, Julia (2006) – Playing, Laughing and Learning with Children on the Autism Spectrum – A Practical Resource of Play Ideas for Parents and Carers

Healy, J. (1987) - How your child’s growing Mind - Brain Development and Learning from Birth to Adolescence.

Hannaford, Carla (2005) - Smart Moves - Why Learning Is Not All In Your Head.

Hirsh-Pasek, Kathy; Golinkoff, Roberta (2004) - Einstein Never Used Flash Cards - How Our Children REALLY Learn - And Why They Need to Play More and Memorize Less

Wednesday, September 22, 2010

Autismo, cérebro, janelas .... o que é importante saber



Seu filho foi diagnosticado com autismo, pronto! Uma bomba-relógio está armada ao seu lado, muita informação vem e vai e assim começa a sua corrida contra o tempo porque alguém falou ou se leu em algum lugar que só há uma oportunidade de “salvação”, que existe somente uma janela de oportunidade que se fecha com o passar do tempo, que é responsabilidade sua ser hábil, em tempo e eficiência para moldar corretamente o cérebro do seu filho.


É uma situação de extrema pressão em cima de uma familia já fragilizada e assim aparecem inúmeros “vendedores” de milagres, alguns bem intencionados porque querem realmente acreditar naqueles milagres e outros com o único intuíto de aproveitar-se da situação, e nesse embolar de informações de um mundo todo novo, muitas vezes o bom-senso, o raciocínio lógico e coerente se perdem. Nesse turbilhão cheio de pressa e de desespero estamos nós, os pais de crianças com autismo e assim nos tornamos “presa” fácil de ilusões e ilusionistas.


Autismo não é uma sentença, não deve ser visto assim, seu filho é uma criança que terá desafios, dificuldades, porém o diagnóstico de autismo não te entrega um “manual”, só coloca em evidência o que é verdade para todo ser humano, o futuro do seu filho é mais obviamente incerto.


Claro, existe uma perguntas que perturbam dia e noite, e agora? O que fazer?


Neste ponto, o importante é manter na mente e o foco que as terapias, os objeivos das terapias, os tratamentos devam obedecer, no mínimo, a lógica. Devam ser fundamentados no que é natural para uma criança, porque um autista de dois, três, quatro anos é em primeiro lugar uma criança e deve ter o direito à infância, uma infância que já será parcialmente prejudicada por sua síndrome e que não deve ser destruída por um tratamento sem nexo que não respeita as etapas do desenvolvimento, e o tratamento deve é ajudar que essa criança goze das delícias e descobrimentos da infância que são a fundação para aprendizados futuros e mais complexos, porém, sem uma sólida fundação, não há como construir um arranha-céus e talvez, nem mesmo sustentar uma casa de um só pavimento. Com isso, vale repetir que a criança autista deve ser vista como criança acima de qualquer diagnóstico.

Existem muitos mitos acerca do cérebro humano e como seu desenvolvimento acontece e isso leva as pessoas a acreditarem que o cérebro é como um amontoado de argila que se pode moldar ao invés de encará-lo como um órgão desenvolvido pela natureza que é programado por milhões de anos de evolução, este mito é sustentado pelas publicações científicas que parecem publicar manuais de como ter cérebros melhores.

Com uma cultura encantada com a ciência, nós pegamos o pouquíssimo que se sabe sobre o funcionamento do cérebro e extrapolamos ao tentar explicar os vários aspectos do comportamento humano.
O que se sabe ao certo é que a pontuação nos testes de QI nada tem a ver com felicidade, competência e sucesso na vida.

De acordo com a Teoria de Inteligências Múltiplas de Howard Gardner nós temos sete tipos de inteligência: lógica/matemática, lingüística, visual/espacial, cinestética corporal, musical, interpessoal e intrapessoal.

Porém, na educação formal somente são enfatizadas as inteligências lógica e lingüística.

O Dr Daniel Goleman, autor do livro Inteligência Emocional, coloca as emoções no centro da aptidão para viver a vida de forma inteligente. Ele mostra que quando pessoas com QI alto não sucedem tão bem na vida e pessoas com um QI modesto se saem muito bem, o fator decisivo é a “inteligência emocional”. Isto inclue auto-controle, entusiasmo e persistência, e a habilidade de auto-motivação.
Porém, no autismo, um dos pontos chaves da dificuldade de desenvolvimento está justamente a cerca da “inteligência emocional” em todos, ou somente em alguns aspectos. As nossas crianças têm como desafio a motivação, a persistência, o auto-controle, a curiosidade.

O corpo, pensamentos e emoções estão intimamente unidos através de redes neuroniais complexas e funcionam como uma unidade para melhorar o nosso saber.

As pesquisas na neurociência estão ajudando a explicar como e porque um bom desenvolvimento emocional é essencial para entender relacionamentos, pensamento lógico, imaginação, criatividade e até a saúde do corpo.

Daniel Gelernter, cientista da computação, é enfático neste ponto: “Emoções não são uma forma de pensamento, não são uma forma adicional de pensamento, não são um bônus cognitivo, mas são fundamentais ao pensamento”.
Por tudo isso, focar a aprendizagem na área acadêmica além de ser fora da problemática central do autismo, dá a impressão às crianças que o aprendizado é uma tarefa ao invés de ser algo que vem naturalmente da curiosidade e da exploração.

É mais produtivo ajudar as crianças a fazerem conexões físicas e mentais através de brincadeiras que promovam a auto-regulação, e a infância está repleta destas brincadeiras, do que enfatizar informações pontuais específicas.

Especialistas em desenvolvimento concordam que o único fator que optimiza o potêncial intelectual da criança é um relacionamento seguro e de confiança com seus pais e cuidadores. O tempo gasto com chamegos, brincadeiras, atenção total e uma comunicação consciente com a criança estabelece uma relação segura e de respeito que é a base da pirâmide do desenvolvimento infantil.

Tudo isso quer dizer que para qualquer criança, seja ela de desenvolvimento típico ou com desafios, o melhor começo que pode ser dado em direção ao seu desenvolvimento pleno é a satisfação nos seus relacionamentos, para isso é preciso um raio-X do que está inadequado para que esse relacionamento tenha uma fluência de troca entre a criança e as pessoas que a cercam.

Sunday, September 12, 2010

Movimento - aprender com o corpo


Mas qual a necessidade para tanto movimento?


As pesquisas para entender como o cérebro processa levaram ao reconhecimento que o movimento ativa as conexões neuroniais através do corpo, fazendo com que o corpo inteiro seja o instrumento de aprendizado.


Movimento, particularmente balançar, girar, ou ficar de cabeça para baixo, ajuda a desenvolver uma área grande e importante por trás do tronco encefálico: o cerebelo, que se conecta ao sistema vestibular que está ligada aos mecanismos de equilíbrio no ouvido interno. O cerebelo também interage com os níveis frontais mais elevados no cérebro responsáveis pelas habilidades cognitivas como a linguagem, a interação social, a música, a capacidade de realizar atividades repetitivas automaticamente ( escrever a mão), e talvez a atenção.


Atividades físicas como jogar bola, escalar um brinquedo promovem a integração olhos-mãos, além de desenvolver a coordenação dos dois lados do corpo que é importante para as habilidades intelectuais baseadas em ligações entre os dois lados do cérebro.


Brinquedos que incentivam o jogo manipulativo desenvolve habilidades motoras finas e seqüenciamento, que estão relacionadas à atenção e habilidades de autocontrole, caligrafia e proficiência nas artes.



A ciência moderna nos ajuda a apreciar o papel de todo o corpo, e não somente o cérebro, e a importância do movimento e da brincadeira para que o aprendizado aconteça, porém a vida moderna tem feito o benefício desta descoberta cada vez mais difícil de ser alcançado.


As crianças de hoje passam horas em frente à televisão, videogames, computadores e com isso exercícios físicos regulares, brincadeiras imaginativas e espontâneas e conexões humanas íntimas somem da agenda diária.


Quando as pessoas se exercitam é de maneira competitiva ou compulsiva. Nossa existência diária é altamente estressante e como sociedade nós estamos constantemente sob medo, medo pelas nossas vidas, bem-estar e posses. Nós acabamos por nos sentir isolados e até deprimidos uma vez que a comunicação interpessoal diminui.


É comum, que a alternativa para diminuir o estresse, ansiedade e depressão sejam drogas, de uma forma ou outra.


Todos esses fatores diminuem a nossa capacidade de aprendizado e com isso diminui nossa criatividade e a capacidade de desenvolver nosso potencial.






Neuro plasticidade





Plasticidade neuronal é uma característica benéfica intrínseca do sistema nervoso que nos dá a capacidade de aprender e a habilidade de adaptação em resposta a um estrago - reaprender.

Logo após a concepção e por toda a vida, o sistema nervoso é um sistema em constante transformação e auto-organização. Não segue nenhum plano estabelecido e nunca está estático. Nós desenvolvemos nossas conexões neuroniais como resposta direta das nossas experiências na vida.


Enquanto nós crescemos, nos movemos, aprendemos, as células do nosso sistema nervoso conectam-se em caminhos e padrões complexos. Estes padrões são organizados e reorganizados por toda vida, permitindo que nós recebamos estímulos externos que nos dão a habilidade para performar os infinitos trabalhos da vida humana.

Movimentos integrados e voluntários parecem ser a chave para as conexões neuroniais. A mera repetição de um comportamento não determina que ele foi aprendido. Conexões neuroniais podem ser alteradas ou aparecerem novas somente se houver a atenção empenhada no movimento, foco no que fazemos.

Interação, curiosidade, exploração e experiências físicas pelo prazer e desafio de serem realizados facilita a neurogêneses por toda vida.

Atividades físicas e intelectuais desenvolvem tecidos cerebrais excedentes que compensam por estragos. Quanto mais você utilizar o seu corpo e mente, mais ele crescerá.

A plasticidade neuronial e a organização do sistema nervoso nos dão a janela para o potencial de aprendizado e cura por toda a vida.



Bibliografia:


How your child’s brain Grows. Brain Development and Learning from birth to Adolescence - by Jane M. Healy. PhD



Smart Moves: Why Learning Is Not All In Your Head - by Carla Hannaford